segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Breve (Augusto Simões)

Quando já não esperava mais, cravou-me um beijo e não quis mais nada. Nem parecia tão distante. Atravessou o mundo e não se importou com o desconhecido. Deu-se, quis e quis mais. Nada parecia menos, tudo tornou-se mais. Queríamos mais, fomos muito mais, sentimos demais. Tudo era pouco perto de nós. Nenhuma alegria nos alcançava, nenhum sorriso era mais aberto. Beijamo-nos aos pulos, aos abraços, sentados, encostados, esbarrando em todos enquanto girávamos juntos. Virávamos um só e só nos soltávamos quando pensávamos se seriamos além. O que seria além, uma vez que nos encontrávamos muito além do que achávamos ser além. Distantes de todos, em meio à multidão, éramos outros e todos sem qualquer distinção. Apenas tudo o que precisávamos. Nem sequer sonhávamos por que lá já era o sonho que nunca sonhamos ter. Tudo erámos nós, nós éramos tudo e nada havia entre nós. Só fomos e mesmo que pudéssemos ainda ser, seriamos um pouco menos, por que nada será como fomos. 

domingo, 16 de setembro de 2012

Escora


Dito em palavras toscas, mensagens distorcidas, o sinal da derrota é sempre confuso e ao mesmo tempo claro. Não se fazem mais amigos como antigamente, não se fazem mais laços como sempre, tudo o que resta é o pouco que sobra de si para transformar em bengala e se apoiar até que se recupere.

“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, “Não desista nunca”, “a insatisfação movimenta o mundo” e quando todos os ditados, mesmo que fazendo sentido, não surtem efeito? A caminhada é longa, mas nem sempre o caminho é claro. Bifurcações, pedras, rochas, paredes, o que mais se pode se por na estrada?

Tudo que sobra é o pedaço que ainda há em si mesmo. Posto que, ao redor, não nada ou ninguém em quem se apoiar. E quando tudo é falho e frágil? Todo banco ou encosto pesa ou pende na direção oposta e tudo que foi construído e deveria suportar simplesmente clama por suporte. Seu peso, mesmo quando não existe é medido pela simples presença ou ausência no horário incorreto.

Se levantar é difícil, se rastejar é incômodo, parar é cruel e mal visto. Mexa-se e condene-se, pare e envergonhe-se. Todos não se importam, mas ninguém se importa. É o paradoxo do mundo visível. A antítese do mundo atual que sonha tanto com o ideal que nem sequer tem tempo para construí-lo.

Discursos, livros, compreensão, estudos e onde anda a ação? Sai caro demais. Gasto de empenho, gasto de energia, gasto de dinheiro, gastos com argumentos. Por demais. Não façamos pois já sabemos como fazê-lo. Fê-lo? Não , não, Pode ficar melhor.

A.S.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Morina Filósofa

Atormentada e perdida, vivera uma história já findada em seu passado. Apesar de seus pesares, era a vida que conhecia. Pensava sempre se era a coisa certa a fazer, mas o que poderia entender como mais correto se nada experimentara há anos, se nada era além do que se tornara?

Deixou-se sucumbir em falsas esperanças e no cotidiano que cercara seus dias. Por mais que doesse, era rotineiro, comum, era uma vida que sabia viver. Nada era excitante, nada desafiava. Suas mãos acariciavam, seus lábios beijavam, seus calores eram saciados quase que de forma automática. Conhecia aquilo como paixão, via naquilo o amor.

Quando enfim tomada pelo limite, viu-se apta a agir, mesmo que completamente assustada, dando um fim ao que jazia há muito em sobras de lembranças e sentimentos tão vívidos outrora que não se justificavam findados por razão alguma. Tomou um impulso e, mesmo ainda dando-se ao papel de pedir aprovação, deixou a caverna e foi buscar o que havia além daquela luz que lhe machucava os olhos e lhe assustava tanto que jamais, após tantos anos, imaginara ver outra vez.

Viu-se em meio aos sorrisos, às novidades, às possibilidades. Olhou cada pedaço e prometeu para si que não haveria de se encontrar em qualquer lugar obscuro tão cedo. Fez-se livre como poderia. Gritou para o buraco onde vivia “estou livre! Tão livre que até posso voltar aqui e sair outra vez!” Mostrou ao mundo como poderia viver sem deixar seu passado para trás.

Após meses de caminhada encontrou o que não buscava. A liberdade. Seu coração voltara a palpitar, seus sentimentos e emoções pareciam mais vivas que nunca, mas seu medo de ver-se presa ao que quer que fosse a afastava da liberdade. Morina tinha tanto medo de encontrar-se presa que fugiu da liberdade tão sedutora ao encontro do todo.

A caverna voltou a bater em suas veias. Em seus rugidos e sons guturais, lembrou do conforto, lembrou das tradições, dos momentos calmos, de toda história que havia sido construída ali dentro.

Morina fora forte, a caverna deu-se e findou em sua vida até certo momento. Porém, desde a sua partida, havia um espaço vago ali.

Mesmo depois de aprisionar e nem sequer reagir, a caverna ainda era um lugar que Morina podia dizer que conhecia. Esperava que ela pudesse ser mais aconchegante, mesmo se tratando de uma fortaleza de rocha e areia que apenas urrava por que havia mais um espaço vago naquela concha onde tudo ecoava. Mas em sua cabeça, seu papel era voltar para aquele lugar e abafar os urros enquanto sua vida passava além daquela luz.

A liberdade, ainda assim, aparecia sedutora e mostrava mais e mais vida a cada vez que Morina tencionava voltar para a caverna e reencontrar sua “zona de conforto”. A liberdade a fazia se desafiar, viver. Mas comprometer-se com a liberdade, ao mesmo tempo que significava trair sua promessa de não se comprometer com nada, parecia aumentar os urros da caverna. Cada passo mais distante era uma balança entre o ser firme em deixar seu lugar seguro e seguir em frente, manter a promessa de não se comprometer e entregar-se por completo ao mundo desconhecido que a liberdade traria.

Seus pensamentos a afligiam de tal forma, que suas ações passaram a vir todas pelos sentimentos. Seu coração, sem cérebro, clamava por tanto e não conseguia levá-la a decisão alguma. Quando ouvia ou ruídos da caverna, logo postava-se a correr em sua direção. A cada vez que se afastava da liberdade, sentia um vazio, uma tristeza de voltar pra lá, que parava na boca buscando razões para voltar, buscando razões para partir, mas o coração já não pulsava por um lado apenas. A idéia de perder o conforto e a liberdade era atormentadora. A solidão, por mais que passasse por sua cabeça, não entrava em seu coração.

O passado na caverna não fora de um todo triste. Suas memórias anteriores a levavam a pensar se voltaria a se sentir tão bem quanto fora tempo atrás, mas a idéia de perder a liberdade voltava a sua cabeça como um furação e seu coração já doía de tanto que havia de trabalhar. Amava seu passado na caverna, as aprendia a amar cada vez mais sua liberdade no presente.

A caverna insistia que não poderia preencher aquele espaço, a liberdade gritava que a escolha era dela, mas que as conseqüências vinham com essas escolhas e, por mais que parecesse, todos os passos que ela escolhesse poderiam ser dados, em outro momento na direção contrária.

Morina ouvia a liberdade como ouvia a caverna e ambas as vozes pareciam ecoar da mesma forma, mas, por mais que seu coração não decidisse, seu corpo, sempre que se afastava da liberdade, voltava a clamar por ela.

Ao ver a tremenda aflição de Morina, a liberdade cuidou para que suas escolhas a levassem não mais para sua seu final, contudo para suas certezas. Levou-a a pensar mais e descansar seu coração, a ver além da caverna e da liberdade, mas qual era o sentido da caverna e qual o significado da liberdade. A liberdade abandonou Morina.

A caverna, seu refugio, tornou-se o único lugar onde Morina, desprovida de sua então amada liberdade, poderia voltar. Contudo, mais uma vez, ao se deparar com a boca da caverna, não conseguiu seguir. Viu-se imóvel, procurou uma forma de viver ali sem pensar no que havia visto lá fora, sem pensar no que sofrera por tempos ali dentro, quando hesitou.

A caverna que lhe dera tanto, oferecia mais espaço. Porém, depois de ver quanto poderia ter com a liberdade, mesmo tudo não parecia tanto. Suas idéias traiam suas vontades e Morina correu para fora da caverna, mais uma vez, e gritou, mais uma vez. Dessa vez pela liberdade.

Fadigadas, a caverna e a liberdade, puseram-se a esperar a decisão final de Morina. Digna do que escolhesse, deu-se à libardade. Livre, viu-se como presa. Não mais à caverna, mas ao sentimento que alimentara por esta em outro tempo distante.

Preocupada com Morina, a liberdade desceu até a caverna e tentou entender melhor se abandonar a menina seria o melhor a fazer. Posto que em suas dúvidas, livre ou presa, Morina, que viu-se tão contente algum dia na caverna e novamente tão contente ao lado da liberdade, não conseguia mais encontrar a felicidade que era quem buscara por tanto tempo.

Na caverna, viu-se em um lugar frio, triste, não saberia dizer se fora a ausência de tão querida menina que a deixara assim, mas arriscou o diálogo como forma de encontrar uma forma de ajudar Morina a encontrar a tão buscada felicidade.

- Boa noite, posto que não há dia por aqui.

- Quem está aí – respondeu a caverna.

- A liberdade. Temo que não seja bem vinda, posto que conquistei o apresso de alguém que consideras tão valiosa.

- Não tenho raiva de você. Apenas não sei bem o que dizer.

- Confesso que jamais soube o que era estar tão preso, mas faço por um bem maior, pela felicidade de alguém que dizemos amar.

- Nobre de sua parte, contudo ainda não sei o que posso dizer.

- Confesso que tenho uma pergunta que pode lhe ajudar. Mesmo sabendo que, no primeiro momento, não deste importância para a partida de Morina, o que a fez clamar por sua volta justamente no momento em que soube que ela tinha encontrado felicidade?

- Minhas atitudes não têm explicação. Percebi meu erro e a amo. Seu espaço está vago, mas tornei-me apenas uma caverna vazia após sua partida. Antes, contava com o encanto dos seus sorrisos, das suas palavras, porém, de tanto que tive, não vi mais beleza, não vi mais graça. Quando perdi, perdi certo de que a teria de volta. O mundo é muito cruel, ela é muito minha.

- Mas por que a queres de volta?

- Não há explicação. Sinto o que sinto e apenas o sinto. O eco nessas paredes machuca. Este abrigo não tem sentido sem ela. Aqui apenas jaz a carcaça de uma casa abandonada.

- O que é o amor senão o querer bem?

- Concordo com você.

- Então por que arruinar a felicidade de quem se ama apenas por doer? Amor não é sacrifício? Ela não estava feliz outra vez? Por que não deixá-la?

- Não posso explicar meus sentimentos. Sei que ela me ama e eu a amo.

- Espero que a faça feliz caso ela lhe escolha e saiba que eu farei o que estiver em meu alcance para fazer o mesmo se eu for a escolhida.

- Obrigado.

Ao sair da caverna, a liberdade que nunca soube o que era prisão, viu-se presa. Tornou-se densa, voltou à Morina com um ar diferente. Toda a magia parecia apagada. Mas Morina parecia entender que em meio a tantas voltas, a liberdade se perdera e, na busca de um sentido para escolher entre uma caverna e uma vida ao lado da liberdade, encontrou-se a questionar o que haveria de bom em estar presa a uma caverna.

A liberdade fez de Morina a sua caverna. E enquanto lutava pela felicidade da menina, se escondia à sua sombra. Fez-se indisposta a mudar. Tornou-se pálida, mórbida. Passo a passo caminhava para se tornar a própria Morina e, em sua busca por respostas, perdeu-se naquela sombra.

Ao ver que a liberdade não soprava mais os caminhos que seguia, Morina afundou-se em culpa e cegou para a felicidade. Nada mais parecia ser correto. Estar só era abandonar o conforto e a novidade. O conforto não lhe parecia mais tão confortável e a liberdade tinha uma aparência estranha, incomum.

Morina, o consolo da caverna e a sombra da liberdade, tornou-se o fardo de seus dois amores. Confusa, triste, sem perspectivas, buscava uma solução para sua própria felicidade já que não tivera sucesso em suas ações.

A liberdade, por sua vez, reuniu forças e convenceu Morina a voltar para a caverna. Esta, por sua vez, também abalada com as indecisões de Morina, encontrou alguém que pudesse por em seu lugar e desistiu de Morina no momento em que soube que sua volta seria condicional. Posto que seu apreço pela liberdade tornara-se tão grande que seu conforto não era apenas ali.

Abandonada, mais uma vez, pela caverna, Morina correu para os braços da liberdade. Esta já não era a mesma, mas via na pobre menina uma razão pela qual lutar. Acolheu-a e tentou aconselhar e deixar claro que nada é o fim e nenhum novo começo é necessariamente o último começo.

Após tanto tempo, Morina não ouvia mais. A razão lhe trazia sofrimento, a emoção não fazia diferente. Tudo que ouvira só lhe trouxe tristeza, mas estava disposta a ser feliz. E a liberdade lhe parecia a única opção.

Com a liberdade abalada, Morina sentiu-se presa. Num impulso resolveu se afastar de tudo. Foi para longe de tudo que vivia e viu tudo de longe.

A liberdade, após algum tempo sem sua sombra, reencontrou-se. Voltou a soprar e correr. Sentiu falta da menina, mas sabia que era o melhor. Era um caminho para encontrar a felicidade.

Morina, no entanto, foi o mais distante que pôde, porém percebeu que sem a liberdade é difícil ser feliz. Foi firme até onde pôde. Conheceu pessoas, lugares, comidas. Assim mesmo, a liberdade, mesmo que tão distante, lhe comovia.

Voltou antes do programado e correu para os braços da liberdade. Agora mais leve outra vez, voltou a conquistar o que havia perdido em meio às dúvidas que Morina trouxe consigo.

Morina, ainda cansada e traumatizada com tantas perguntas, ainda não entendia a liberdade. Achava que o que era uma fase tinha sido algo em que a liberdade havia se tornado. Por algum tempo ainda teve medo de estar presa àquela liberdade que se comportara tão estranhamente por algum momento. Contudo, dia após dia, sentiu-se mais e mais livre. Morina voltou a sonhar, a amar.

A caverna, Morina nunca esqueceu. Optou por pensar que quem quer que tenha tomado seu lugar que já não era mais seu, haveria de confortar a caverna assim como a caverna havia a confortado por tanto tempo.

A liberdade tomou um lugar em seu coração que ela já mais imaginara que existia.

Junto com a liberdade, Morina encontrou a felicidade num mundo claro e cheio de descobertas. Jamais ambas cegaram para o mundo.


A.S.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Passagens, Passagens

Temo que a solidão de meus passos não seja culpa de ninguém além de mim mesmo. É possível, que em um daqueles momentos em que fazemos escolhas que não poderemos voltar atrás, escolhi a tristeza no lugar da felicidade e não notei por estar cego para ambas “virtudes”. Alguns passos à frente, alguns olhares ao longe tiraram o foco do meu antigo agora e, na esperança de ser livre e mais feliz, sucumbi na escolha. Acabei com meus sorrisos, com meus sonhos e até mesmo com minha beleza interior que sonhava com o bem de todos os que me rodeavam.

Já iluminei vários caminhos e me gabei por tanto. Porém, não notei as sombras que contornaram cada façanha minha. Os corações que parti, a feridas que abri, a incapacidade que instalei nas memórias e sentimentos de tantos que se aproximaram. Pus-me, enfim, a escolher, por razões lógicas, quais seriam as perdas e lucros que me fariam escolher. Deixei meu coração de lado. Deixei a felicidade de lado e virei carne e lógica.

Quanto mais profundo se está em um poço, mais difícil é entender quando se sai dele. Qualquer sinal de luz já é um paraíso após algum tempo vivendo em plena escuridão. E quando um feixe de luz brilha, algumas vezes, paramos de nos esforçar e vivemos, mesmo que afundados, profundamente, a ilusão de estarmos na superfície. Até que, por estarmos tão distante da boca do poço, afundamos outra vez, posto que o caminho é mais curto e o esforço que se faz para alcançar uma pequena distancia acima é infinitamente maior que o de se iludir com a possibilidade de alguém te puxar. Logo, relaxamos outra e outra vez, levando à vida a culpa de não sermos felizes nunca. Mas a verdade é que não nos esforçamos o bastante.

O passado deixou suas marcas, seus traços e algumas raízes que jamais nos largarão. Contudo, é mais fácil viver com isso que viver fingindo que nada aconteceu. O passado há de ser a base e sustentação do presente. Quem não o conhece ou o ignora, tende a repeti-lo.

O futuro, tão aguardado, quando menos esperamos está em nossas faces. A dúvida é quanto ao que fazer quando ele chega. Pensamos tanto, planejamos tanto que poucas vezes pensamos no “e se chegar?”. Caso chegue, esteja preparado para vivê-lo. O futuro não é um conto de fada, mas o resultado de esforços (ou não) que nos cobram atitudes. O futuro não estará sempre tão a frente. Quem pensa demais no futuro não vive o agora.

O agora sim, transforma, alimenta, machuca, fere. O agora é sempre real. E é sempre agora que podemos mudar ou mantermo-nos os mesmos ou até voltar ao que éramos antes. E é o agora que vivemos sem pensar, mas pensando em viver melhor os próximos agoras e nos preparando para viver os novos agoras.

Hoje é tudo o que temos, pois amanhã ninguém sabe.


A.S.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Nada de Paz

Queria uma vida tranqüila, mas não resisto a um desafio. Mesmo que demande tempo, toda conquista é mais bem quista que um acaso, toda vitória é mais comemorada que um acerto. Não vejo glórias, porém não consigo deixar de pensar que uma história é mais digna de ser contada quando aventuras, dramas e tanto mais são as raízes de um resultado esperado ou não.

Não conto louros, mas vivo de histórias. Um capitulo de minha vida que não seja contado como história nada mais é que uma temporada em que morri por algum tempo. A vida é feita de emoções, se resguardar e se poupar é praticar espaços de tempo sem vida. E, digam o que disserem, o que há de melhor na vida é viver!


A.S.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sorria!

Nada, pois nada mesmo, há de fazer menor minha alegria de viver. O que bate em meu peito não é apenas um coração, mas uma escola de samba inteira. Sorrir? Por que não? Chorar? Só se for pensando em sorrir depois! Ou até mesmo de alegria ou emoção. De nada me vale amargar uma vida tão cheia. Perder é dar espaço para ganhar mais depois. Pensar que algo é pra sempre é ter a doce ilusão que a vida não se acaba alguma hora pois tudo que era pra sempre, sempre será finito. Posto que nada levamos (seja lá o que sua religião diga) além de nossas lembranças. Então, tão logo, de que adianta lembrar de histórias amargas ou viver o querer e não o que se pode. Quero, logo não vivo. Vivo, logo penso. Amo, logo existo.

Se alguns versos convencessem qualquer que fosse o cidadão, não haveria mais tristeza sem alegria de se estar triste. Posto que tudo que nos cega para a felicidade nos estimula a buscá-la. A razão da vida não existe! O que existe é a razão que damos à vida. À vida é que devemos nos dar. Dar vida, dar a vida pela própria vida. Sofrer demais é tirar o pouco tempo de alegria que se pode ter. Remoer e amargurar é deixar de lado momentos felizes e depois alimentar a tristeza por não tê-los vivido.

Bom dia! Boa tarde! Boa noite! Eu te adoro! Eu te amo! Estás tão linda! Bons sonhos! Que belo dia! Que céu lindo! Apenas três palavras podem contribuir para o dia de qualquer um. Tudo bem poupar energias para aplicá-las em outras atividades, por que não economizar gritos para comemorar na hora certa, mas o que se ganha ao economizar um cumprimento?

Sorria, por mais bobo que pareça, por mais estranho que seja o olhar te dirijam, é lógico, vão pensar e sentir seu sorriso como uma inspiração para sorrir também. “É impossível ser feliz sozinho!”. Então sejamos juntos. Eu, você e qualquer um, todos juntos neste pequeno planeta que achamos tão grande, nossa terra natal, a Terra, planeta água.


(A.S.)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Um Espaço de Tempo

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O que é um espaço de tempo comparado com todo tempo do mundo? Que ilusão sobrevive o bastante? Só mesmo se for real, dura, perdura e frutifica. Vingar, só vinga quando é forte o suficiente. Não adianta plantar uma arvore já crescida. Sem raízes bem fincadas no chão, por mais bela que pareça, será apenas um pedaço de madeira de pé e pronto para cair na primeira brisa que chacoalhar suas folhas.

“Tempo ao tempo” é como se diz. Criemos algo do começo. Sejamos ínfimos, minúsculos, pequenos, para que, então, cresçamos, andemos, falemos de tudo que viveremos, que vivemos, que estaremos vivendo. Para que, enfim, sejamos grandes, tão grandes quanto desejamos ser, para que alcancemos o céu e nem a maior tempestade possa nos derrubar. Posto que crescemos, desde ínfimos, para todos os lados. Posto que não olhamos apenas para cima querendo alcançar os flocos de nuvens no céu, mas procuramos nos espalhar ao nosso redor e a cada camada que formos criando, mais três se formarão por cima. Até que no futuro, vendo nossa aparência jovial, não consigam entender como uma árvore tão velha conserva tanta juventude. Aí sim, diremos, sorrindo, abraçando-nos, com os olhos brilhando: “Somos apenas um espaço de tempo circulando por todo tempo do mundo!”


(A.S.)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Tudo bem, já passou.

- Tudo bem, já passou.

Quisera eu que suas lágrimas fossem minhas, que sua dor fosse minha e que só lhe restasse a lição e a maturidade que há muito já adquiri. Deixou-se deitar em meu peito depois de tanto pranto qual deixa-se seguramente no travesseiro de sua cama após fadigada. Senti seu coração pulsar mais leve, agora que já derramara seu pranto sobre meus ouvidos e acalmava-se ao refletir minhas palavras.

- Por hora não sei como dizer – confessava aos soluços – posto que minhas atitudes não refletem todo o meu coração.

- Pois tente. Nada é pior para um coração que guardar tais mazelas sem saber o que fazer com elas.

- Pus-me a desfazer tudo aquilo que lutei para construir. Demolindo um prédio dentro de mim, mas os alicerces não me deixam sossegar. Cravados metros a fundo. Tropeço sempre que tenho a intenção de um passo mais largo. Vejo-me tão livre, tão plena, mas, ao mesmo tempo, tão presa.

- Diz-se que o que não podemos vencer, devemos aprender a viver junto. Não que devas voltar ao passado, mas que deves saber conviver com ele. Não pense em se livrar, mas em compreendê-lo na situação atual e vê-lo como a base para sua nova vida.

- Tarefa difícil esta.

- Mais difícil foi deixar o passado para trás. Agora, resta-lhe repor as forças e seguir com a segunda etapa desta empreitada.

- Entendo, mas ainda assim dói. Dói muito!

- Não te desesperes. Pensa que a dor de um parto é a felicidade de um filho. Felicidade esta que se estende para a mãe que sente a dor, para o filho que sai de seu conforto e para cada um dos membros que estão ao redor e comemoram uma dor que simboliza o início de uma nova vida cheia de alegrias e atropelos, mas tomada de novas possibilidades de amor.

- Pensando assim, parece até bom. Mas quando finda esta dor?

- Assim que tiver de findar. Deixe a felicidade que te culpa se sobrepor ao medo que te prende. Procure enxergar que, nesta balança, o maior peso está no que mais presas. A felicidade.

- Sinto que palavras são mais simples que as experiências e, mesmo ao brandear meu penar por hora, não soluciona meu pesar.

- Queria que fosse mais simples, porém sem vivê-las jamais saberás do que digo. Contudo lhe digo apenas para que à medida que vás enxergando, pouco a pouco, a solução, a compreenda mais facilmente auxiliada por minhas palavras.

- Temo que dure muito, mas vejo-lhe paciente, meu bem.

- Não há pressa para nós. Apenas deite-se e deixe-se em seus pensamentos. Mais tarde seremos apenas nós.

- O quão cedo, meu bem. O quão cedo.

Perdi a ansiedade há muito. Por mais que muito queira como quero muito, quero por completo e de verdade, não apenas a ilusão da paixão, entretanto mais, muito além disso.

(A.S.)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Não!

Não apenas me confunda entre suas vontades. Deixe-me um pouco de ti, deixe um tanto de nós aparentar. Tem tanto, mas é tão pouco o que aparece. Cansei das regras e limites. Nunca fui de ter limites, mas agora, por razão ainda desconhecida, tenho aprendido a conviver com eles. Mas não significa que gosto, que quero. Apenas que aceito por suas razões. Não sou de um todo egoísta como aparento. Deixo, aceito, acato, porém, você, não os limites.

Não posso sorrir sem ter certeza que posso, nem mesmo tocar na dúvida sobre a reação. Ainda assim posso falar mil palavras que fazem bem. Da mesma forma como respostas já dizem demais.

Gosto. Gostas. E ponto.

No entanto, nos enforcamos com bobagens sendo assim, como poderia dizer, racionais demais.

(A.S.)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Paradoxo

Dizem que do amor se faz dor, mas eu não digo. Só dizem mesmo. Disse? Só por que disseram o que disseram. Digo tantas coisas e me arrependo e não me arrependo do que digo, às vezes nem sei se disse mesmo ou só disse que disse.

Disseram que digo muito sobre mim. Dizem, não digo nada. Dizem, também, que se digo é por dizer, não de verdade. Digo que não digo por dizer, mas dizem que só por dizer já digo. É que não consigo dizer que digo o que digo e digo por dizer que digo por dizer, entende?

Dizem que nem eu entendo, mas não digo nada. Digo por dizer ou, digo melhor, digo de verdade que amo quando amo, mas digo por dizer. Dizem que a própria verdade pode não ser verdade, não é? Dizem, não sou eu quem diz.

Eita! Disse por dizer de novo e nem notei. Disse? Dizem que falo demais de mim, mas isso é o que dizem, eu só digo por dizer, mas quando se trata de amor, só digo a verdade. Digo por dizer, dizem. Mas disso eu falo de verdade.


(A.S.)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Aos Meus

Olham-se, um ao outro, e começam a sorrir. Lembram-se, vêem-se, imaginam-se. Amam-se. Abraçam-se, até beijam-se. Brigam. Juntos, um contra o outro. No fim, apóiam-se. Dão-se uns aos outros. Possuem-se, dividem-se, dividem, se querem, se gostam, se odeiam, se suportam, se separam, mas sempre voltam.

Olham-se, choram, escrevem-se, comunicam-se, calam-se. Conselhos, conversas, debates, choros. Ombros, braços, palavras. São sempre, nunca são sempre, mas sempre são. Abrigam-se, obrigam-se, aproximam-se, afastam-se. Idas, vindas. Mesmo que distantes, sempre, sempre e sempre juntos.

Amizade é um dom, um presente. Amizade é saber-se sempre e sempre contente, mesmo que triste, só por saber-se amigo. Amizade é entender e não entender, mas saber que mesmo sem saber nada, algo acontece. Amizade é ver uma pausa na conversa e entender a tristeza. Amizade é olhar um olhar e entender que há um novo amor. Amizade é sentir que dentre tantos abraços, aquele é o seu, particular, só seu. Amizade é ouvir aquela frase de sempre e perceber que agora você acredita nela. Amizade é conversar sobre a mesma coisa e saber que não é uma questão de dividir, mas de tentar se livrar ou entender aquilo por repetição. Amizade é amar de verdade sem precisar estar perto. Amizade é estar feliz com a felicidade do outro e triste com a tristeza do outro.

Amigo é aquele que a gente olha “e reconhece”. Amigo é aquele que some a gente nunca esquece. Amigo é aquele que volta e a gente até esquece que passou tanto tempo. Amigo é aquele que não te deixa por nada. Amigo é você que entendeu o que eu falei e já se viu em alguma destas situações comigo. Amigo é tanto mais que não haveriam palavras, situações ou idéias que poderia descrever.

Aos meus amigos!

(Sem revisão, ok? Perdoem os erros.)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Harmônico

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Na falta de ritmo ou cadência, tocou um samba desconcertado, mas acertou na letra, improvisada. Soltou os pensamentos em rimas mal encontradas e se fez feliz com o que fazia. Ao longe, fora observado por quem passava e não ouvia. De fora, até parecia um samba feito, mal tocado. Mas as cordas eram velhas, o violão baixo e as mãos eram lentas. Trocando acorde a acorde, perdia o tom da voz e escorregava naquela letra que lhe aparecia na hora.

Ao deleite de um segundo refrão, observou-se, só. Jamais se viu tão bem acompanhado. Achou-se no sentido de encontrar-se e se deu mais de si como presente para aquela data que, desde aquele momento, tornava-se comemorativa. Abraçou-se mais ao instrumento, feriu as cordas com menos força até que encostou o ouvido na caixa. Podia sentir-se parte dela. E soava junto, harmonizava cada nota saída da canção que não voltaria a ouvir.

Deu-se por demais ao encanto daquela melodia, daquela letra. Agarrou-se ainda mais ao violão até que sonhou com o resto da música. Despertou e partiu, sem musa, sem música, sem sono, mas com o sorriso de quem encontrou o par perfeito.


(A.S.)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O que será que me dá?

Não sei bem o que pensam sobre o amor. Muito menos o que sentem quando amam, aqueles que não sou eu. Sei, apenas, o que minhas experiências me ensinaram sobre este sentimento, dito tão nobre, porém tão confuso, significa para mim. Não são poucas palavras para descrever esta simples palavras de quatro letras, como tantos a descrevem, claro, no meu ver. Contudo, não acho que seja de pouca importância descrever aqui, talvez, apenas mais uma forma de descrevê-lo.

Há alguns anos, ouvi de meu avô, homem simples, do interior da Paraíba, cercado de vivência inocentes, educado por uma cultura arraigada de preconceitos e machismo, contudo, cercada de reflexões e estudos religiosos, que o amor é algo, comumente confundido com a paixão. O que não é algo difícil de concordar.

No passar dos anos, depois que se conhece o amor. Cedo. Na infância. O mais buscado e esperado sentimento de todos, torna-se uma maneira confusa de obsessão. A criança conhece o amor da mãe, quando não, também, do pai, e o entende como algo infindável. De certo, descobre a forma mais delicada, dedicada e real de amar.

Ao alcançar certa idade, tal sentimento passa a ser almejado e procurado em outras figuras (pulando, é claro, a fase em que, usualmente, o amor materno e paterno são vistos de forma repulsiva por muitos de nós). Nestas figuras, a principio os amigos, encontram-se os primeiros “amáveis paradoxos” para não dizê-los paradoxos do amor. Então, começamos a confundir a pureza deste sentimento.

Naturalmente, temos um amor e tratamento exclusivos de nossos pais, mesmo que não sejamos filhos únicos. Assim, logo os definimos de forma única e exclusiva. Por conseqüência, levamos este conceito para as novas experiências de nossas vidas, as amizades, que por sua vez, não são de um todo exclusivas (na maioria das vezes). Assim, achamos de ter ciúmes, sentimentos de posse e até cobranças quando encontramos esta relação.

Nossa “doença” por exclusividade torna-se cada vez mais difícil. Até que, por vezes, deixamos de lado a noção de exclusividade e buscamos o grau de preferência. Quando, sem aprofundar em termos culturais que nos levam à competitividade involuntária, buscamos o destaque, a qualidade de melhor. Melhor amigo. O que quer dizer, o mais exclusivo, o mais importante, logo, o “filhinho do papai”, aquele a quem se dá mais importância ou tem um valor diferenciado dos outros.

Ainda nesta passagem, encontramos outra forma de nos achar exclusivos, únicos, donos do amor. Encontramos a mais complicada das emoções quando se trata de definições e encontros ou discrepâncias e convergências de definições. A tal da paixão.

Paixão é um fenômeno biologicamente ou psicologicamente explicável. Sim, semelhante a algumas características do amor, ela é intensa, transformadora, digna de feitos inexplicáveis. Porém, limita-se ao sentimento de posse. “Paixão dá e passa”, falam as músicas. Paixão é digna da carne. Afeta o coração, dá calafrios, estremece as pernas, contudo, não liberta. Essa emoção se vincula com palavra possessividade de forma tão clara e tão sombria ao mesmo tempo em que fica difícil dizer até onde faz bem ou até onde faz mal.

Em certo filme, chamado “Pecado Original”, um personagem questiona o outro de forma simples. Pergunta se o protagonista quer dar tudo para a amante ou ter tudo. E a resposta admite as duas vontades. O que é o mais comum. Dificilmente a paixão não vem junto ao amor. São duas expressões que, no âmbito das relações “conjugais”, caminham de mãos dadas.

Há muitos anos, assisti um filme que tratava de história simples. Comum. Narrava a passagem de um casal de interior cuja noiva fora prometida ao jovem de família rica desde sua nascença. Como em todo drama (ou quase todo, pra aliviar os “originais”), a menina se apaixonara por outro rapaz com quem terminara fugindo na data de seu casamento. Acostumado com a história, antevi que o noivo haveria de armar uma “caça” ao homem que o “desonrou” na data de seu “casório”, quase desliguei a televisão para arrumar algo mais o que fazer. Porém, fisgado pela admiração que tive pelas interpretações de bons atores, me mantive atento à trama até que viesse o “mais que óbvio” final.

Assim, como mais uma lição pra minha vida, tive uma agradável surpresa. Posto que o escritor da obra fez-se original quando mudou a reação do noivo abandonado no altar e colocou falas e cenas completamente surpreendentes – para mim – naquela época.

Deu-se que, no lugar de revolta, o noivo demonstrou a tristeza digna de alguém que ama e perde seu amor, entretanto, demonstrou o amor da forma que até hoje terminei por absorver e admitir. Ao ver sua noiva partindo e o tal rebuliço na igreja, atinou logo para o coração. E, com os olhos molhados de lágrima, chamou a multidão para a festa do casamento.

Questionado sobre o motivo da comemoração, já que o casamento não se dera, embalou e ensinou meu coração dizendo que, fosse como fosse, amava a mulher de verdade, não a queria pra si, mas a queria feliz, e se a felicidade dela não estava com ele, que estivesse onde estivesse, o faria feliz sabe-la feliz onde quer que estivesse.

Desde então, concebi a diferença entre amor e paixão. Paixão é posse, atração, o querer pra si. Amor é carinho, é dedicação, é querer feliz.

Não quero para mim as pessoas que amo. As quero felizes, seja onde for, com quem for. E, se comigo encontrarem a felicidade, serei feliz ao lado delas.

(A.S.)



Escrevi isto meio bêbado, então, me perdõem as falhas e espero que agrade.

:D

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Tempo Corrido

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Aparentemente textos curtos são mais lidos. Os longos assustam. Lógica comum no mundo da velocidade, no tempo que informação é só o básico, por que informação demais é prejudicial. Lemos bulas, livros e o que mais aparecer, correndo, sempre correndo. Não há mais contemplação na leitura. Apenas informação.

Poucos os que me falam de livros pelo prazer de suas histórias. Tenho ouvido coisas como: “O autor quis dizer isso”, “O contexto parece niilista.” Há tempos não ouço nada sobre como é a história, o fulano que corre atrás da cicrana e o beltrano que corre o mundo para salva-lo. Histórias têm virado tanto clichê que as análises mais profundas e conjecturas infinitas sobre assuntos já passados e relacionados aos sistemas ou análises de sistemas atuais baseadas em idéias passadas que culminaram em tal ou tal resultado na sociedade atual.

Histórias deixaram de ser histórias, estória já nem se fala mais. Algumas palavras se perdem numa sociedade dotada de maioria não leitora e minoria alfabetizada. Os contos e pequenas peças são mais apresentáveis. Os filmes contam um resumo das narrativas dos livros, logo, para quê lê-los?

Neste descaso com as palavras, nesta nova literatura internetês (linguagem utilizada no meio virtual), o que resta aos amantes da leitura são os velhos livros. Pois de novo só há o produto de análises mais profundas e conjecturas infinitas sobre assuntos já passados e relacionados aos sistemas ou análises de sistemas atuais baseadas em idéias passadas que culminam em tal ou tal resultado na sociedade atual.

Paro por aqui para não assustar com o tamanho do texto.

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(A.S.)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Por Dentro

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Já não espantavam as tamanhas paredes, vazias de cores, despidas de quadros. Tampouco a decoração, já há muito abandonada, que se dispunha como sempre em posição, porém tão conservadas quanto o resto. Ali, onde vibrava a vida, só vagavam insetos. Cortinas transpareciam, disformes, tecidas pelo tempo, a imagem que se tinha. Sem deixar passar as poltronas, massacradas pelo uso, pelo mofo, pelos pêlos que ainda vagavam por ali. Deixava-se entender que nem sempre fora assim. Sim, as manchas no tapete imundo ainda eram visíveis, assim como o pó da madeira há muito comida pelos, já obesos, cupins. Passou-se o tempo e lá estava a ferrugem após comer cada abajur sem lâmpada que ainda restava. Não circulava vento e o mofo tomava as paredes com a pouca umidade que restava naquele lugar. Dominava tudo. Fora, só se via a brisa que nada lembrava. Tudo se foi. Não sobrava nada naquele lugar, senão o esquecimento.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bom Dia (A.S.)

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Tenho visto o sol nascer novamente....


Ah! Essas idas e vindas da vida, o que resta é aproveitar enquanto não está quente demais, ou frio demais, nem claro demais, nem escuro demais, quando, ao mesmo tempo, pode ser hora de ir deitar, ou de levantar, posto que o amanhecer é o começo do dia de tantos, mas apenas o fim de mais uma noite para os boêmios.
Despertando para a vida ou acordando para os sonhos,

Eis, outra vez,

O sol voltando a nascer.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lembranças (A.S.)

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Se eu pudesse apagar algo do meu passado, acho que começaria com as fotos. Certos detalhes que, mesmo debaixo de poeira, fechados em álbuns, sempre voltam pra me atormentar. Gosto de sentir saudades quando sei que poderei matá-las. Mas não gosto de sentir falta do passado. Este nunca volta, mas as imagens estão lá. Presas aos papéis que, enquanto não se desgastam com o tempo, com o clima ou mesmo com o fogo, se mantêm ali. Algumas a nos assombrar, outras nos trazendo certa nostalgia.
Se eu pudesse apagar algo do meu passado, não sei bem por onde começaria. Foi tão bom viver aquilo, foi tão ruim quando acabou. Eternizar seria difícil, mas, será que apagando alguns erros ficaria mais bela a minha história? Algumas vezes parece que se voltasse no tempo o ideal seria não dizer aquela frase, seria mais apropriado entender melhor o porquê sentia para depois me expressar e evitar o erro. Assim mesmo, depois do erro, das tristezas e das melancolias acumuladas com o tempo, a vontade que se dá é de apagar tudo do princípio. Desde o momento em que a história deu a entender que iria existir. Dá vontade de apagar tudo. O primeiro abraço, o primeiro sorriso.
Se eu pudesse apagar algo do meu passado, acho que começaria pelo meu passado. E viveria meu presente pensando que no futuro eu não quero querer apagá-lo.
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sem Título

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Mal percebia o sorriso largo em seu rosto até que soluçou tão involuntariamente quanto como aceitou o beijo. Olhava nos olhos felizes à sua frente procurando esconder a alegria tão surpreendente que lhe tomava o rosto e o corpo inteiro. Havia de fazer-se imperceptível e não ousou sequer agir como pensava. Deu-lhe o sorriso e tornou a encarar. Dizia-se suficientemente normal para o que tinha acabado de acontecer. Não esboçaria reação diferente enquanto não houvesse a certeza de que o que acontecera não fora mero acaso. Um caso banal, um beijo esperado por dois durante anos. Tremeram-lhe as pernas, mas sentiu-se feliz de se encontrar bem confortável numa cadeira. As batidas do coração poderiam ser facilmente disfarçadas enquanto não houvesse um abraço. Fora um momento de proximidade que, mesmo com relutância das duas partes, permitiu o encontro entre as bocas. Disseram-se:

- O que me impede de não querer?

- A mesma vontade que tenho. E o que me impede de tentar?

- A insegurança que dou. Mas o que lhe faz querer?

- A forma como me olha. - E se lhe visse mais de perto?
Aproximou seu rosto do outro.

- E se não me importasse e apenas lhe deixasse se divertir?
Manteve-se quieto.

- E se lhe falasse mais próximo do ouvido?
Arrastou a cadeira para mais perto, baixou o tom da voz e disse:

- Se as palavras ao seus ouvidos fossem tão doces que não pudesse resistir?

- Pensaria nelas como falsas já que te divertes me dando insegurança.
Encostou, levemente, os lábios na orelha direita deixando que o toque fosse suave e o ar que expirava fosse breve e desconcertante.

- E se lhe falasse tudo que é mentira com a verdade tocando em sua pele? Toques não enganam, sensações muito menos.

- E se falássemos sobre verdade sem mais suposições – falava devagar, afastando-se da tentação, enquanto, agora, seus lábios é que tocavam o outro rosto até chegar ao lado da boca finalizando a pergunta – o que você me falaria agora?

Com os olhos bem fixos nos olhos, uma sensação estranha de tremor de frio e calor lhe tomando o ventre, entregou-se.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Buquê de Flores

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Em suas mãos, equilibrava um grande e belo buquê de flores. Podia sentir a água morna deslizando por suas bochechas enquanto a olhava. Era triste o olhar do pobre homem que se manteve calado até o último segundo. Olhava fixo com um aspecto desolado e perdido como quem não sabia bem o que ali fazia. Os que passavam o olhavam de lado, não entendiam bem, mas imaginavam coisas. Fora, outrora, alheio a tal dor. Desconhecia.

Diante dela, sem largar as flores, sentia um aperto tão forte no coração que já se poderia, apenas de muito perto, escutar os breves e sentidos murmúrios do pobre rapaz de olhar e aparência já moribundos. Sempre fora falante e, naquele momento, não encontrava vocábulo adequado. Sofria, ainda mais, por isso.

Ela, nada falaria, mesmo que lhe pedisse por obséquio. Mesmo que lhe implorasse. Não ouviria mais uma palavra sequer daquela que havia lhe provido tantas alegrias. Quem dera não fosse tarde demais, pensava. E se em outra época lhe dissesse tudo o que sentia, haveria ele de sofrer o que sofria agora?

Não podia mais ficar ali. Ajoelhou-se. Abaixou a cabeça entre um soluço e outro. Suas lágrimas já esboçavam um rosto desfigurado, inchado, triste. Levou todas as flores até o chão. Lá, as deixou.

Calado, disse suas únicas três palavras audíveis: “Sempre te amarei”. Leu o nome de sua mãe escrito no túmulo, virou-se e foi.
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Augusto Simões

terça-feira, 5 de maio de 2009

Auroras de outras vidas


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De certo era que era a mesma paisagem de fundo. Bastava desbotar os olhos, amarelar a percepção e envelhecer mesmo que voltando no tempo. As plantas que se agarravam aos muros, o singelo balanço que fora de tantas gerações – agora abandonado – sustentado pela velha mangueira. Época feliz aquela. Onde as infâncias eram infâncias e não apenas protótipos de adultos.
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Foi-se o tempo em que pões e bonecas, bolas e balanços eram a maior das diversões. Antes se fossem as TVs e os desenhos animados cheios de intervalos e comerciais e voltassem as revistinhas em quadrinhos, as histórias de contos em livros sem pausas que não fossem seus capítulos ou sonhos.
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Mas o tempo se faz mais curto do que é até para quem tem todo tempo do mundo. Adeus longas histórias que prendiam a atenção. Adeus folclore e lendas populares. Esta época é de aprender a lutar por nada, bater, se machucar, atirar com o maior nível de realidade possível, atropelar...
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Cabe aos que ainda lembram admirar paisagens semelhantes, de longe, porque hoje é até estranho ver alguém brincar como antigamente.