terça-feira, 15 de abril de 2008

O Nobre e o Pobre

Nobre eu, sentando em restaurantes, comprando caro.
Olha lá, além dos vidros tem outro mundo.
Eles pedem, comem lixo, sujam-se e estragam-se.
Não sabem de mim e sei deles.
Olha lá, eles podem sorrir, estão bem. Felizes.
Olha eu aqui. Nobre e morto de medo.
Bem se sabe, eles não têm o que perder além da vida.
E eu? Nobre. tenho tanto a perder.
Vivem bem a vida pois é o que eles têm.
Eu tenho dinheiro e responsabilidades.
Eles têm a vida.
Um me olha nos olhos e vejo nele vida.
Em mim, ele só vê dinheiro e a oportunidade que sou de ter uma refeição melhor no dia.
Vejo nele uma vida sofrida e, ainda assim, sorriso em seus olhos.
Em mim, só vejo meus bens e minha vida mesquinha.
E ele vê o seu almoço um pouco melhor.
Dou-lhe duas cédulas.
Ele me dá um sorriso grato e contente pois seu almoço será dobrado hoje.
Eu vou comer o de sempre, sempre caro e sempre o de sempre.
Ele contará uma história feliz.
Eu, mais uma história.
Ele vai se juntar aos seus.
Eu, volto pra casa e trabalho.
Assim ele vai vivendo.
E eu? Eu vou morrendo e deixo a herança.

Em Construção

Dadas as circunstancias, devo definir que não é aconselhável ou possível envolvimentos ou semelhantes formas de relação. Deixo claro que meus motivos são íntimos e não devem, por hora, serem revelados. O que acontece é que, em minha atual conjuntura, devo recolher-me em minhas particularidades, onde tenho conhecido lições partidas de mim (acrescento, por experiência, mesmo que nova, que estas são de grande relevância), fazendo assim com que não me seja válida qualquer relação que possa prejudicar este momento.

Ainda devo desculpar-me, pois, por fatidicamente ser uma fase nova, portanto desconhecida, posso cometer erros que servirão, com toda certeza, de lição numa nova necessidade de voltar a mim. Isolo-me por acreditar que qualquer contato além do superficial possa vir com sério risco de mágoa ou com a possibilidade de uma má interpretação onde eu estaria usando alguém apenas para suprir necessidades e, sem intenção, alimentando certas idéias errôneas.

Passado este momento, serei novidade. E o novo, como de costume, é desconhecido, por assim dizer, imprevisível. Meus passos após serão futuro e só no presente poderei dizer quem sou. No momento sou apenas olhos e boca, desliguei um pouco meus ouvidos.

Por fim, sou mudança em mim, sou reflexão, sou o todo em mim. Até a hora de voltar.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Bom Fim

E se o amor não vingasse? E se sumisse o amor? E fosse aonde fosse, ele se escondesse? Onde haveria de ir o amor? Será que entre outros ou sumiria de vez? Partido, o amor se soltaria no mundo em pedaços e sumiria daqui. O amor evaporaria e se iria aos ventos, como um vírus, assim seria o amor. Não seria mais nosso. O amor seria daquele que o respirasse. E nosso adeus ao amor seria o fim de nós. O início de outros. Então, só assim, não seria ruim o fim do nosso amor.

domingo, 30 de março de 2008

Não sou poeta

Não sou poeta. Não escrevo com métrica, rimas, não escrevo com beleza. Mas gosto de escrever. Gosto de falar do que sinto e fingir que pode haver razão na emoção. Contraditório? Talvez. Ainda assim gosto de pensar que existe. Ainda assim não sou poeta, não escrevo beleza. Escrevo o que sinto, não o que olho. Não descrevo, escrevo.

Prefiro mostrar os cenários como me vêm. Descrever algo que qualquer um pode ver. Vou além. Mostro o que significa pra mim. Vejo a sombra e não a árvore, o frescor e não a água, a leveza e não o vôo do pássaro. Não sou poeta. Não escrevo versos. Os parágrafos são, por hábito, mais extensos, mais livres.

Por hora, gosto de dizer-me poeta. Assim posso desfrutar da liberdade de alguns erros. Como fazem os poetas. Ainda rimo algumas frases, mas, nada que possa ser chamado de poema, poesia, verso, prosa. Tudo isso me prenderia, limitaria meus pensamentos, mudaria o sentido do que quero dizer. Já disse, não sou poeta. Sou livre.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Aprendizado

Ele nunca me chamou de flor. Entretanto, me escrevia poemas onde assim me chamava. Jamais me dava ouvidos, mas ouvia tudo que eu dizia. Pouco me falava e tanto me fazia que nem poderia notar que suas poucas palavras eram suficientes para expressar tudo que eu queria ouvir. Não me fazia nada e, assim mesmo, estranhamente, me via satisfeita com tudo que ele fazia. Divertido é que eu sempre reclamava.

Todo dia ele calava enquanto eu reclamava de sua falta de postura, de seu comportamento infantil, das suas brincadeiras, de suas poucas juras de amor. Não suportava suas pequenas histórias com lições nas entrelinhas. Julguei tudo o que podia. Suas roupas, seu comportamento, suas histórias, seus sentimentos. E, ainda assim, ele não mudava. E perdi.

Seu silencio vinha do meu já sabido temperamento, quando contrariada em momentos de sangue quente, jamais escutava. Sua postura era a mais certa comigo, não reagia. Seu comportamento era infantil porque ele se sentia como uma criança comigo, não importava mais o mundo. E existe prova de amor maior que esta? Esquecer o mundo quando estava ao meu lado. Tudo era eu e ele naqueles momentos bobos e, hoje, lindos. Suas pequenas histórias eram as lições que eu deveria aprender. Ele as contava de forma terna e compreensível para que minha cabeça dura não o impedisse de tentar me ajudar quando eu tentasse interromper um sermão. A ele não importava nada se estivéssemos juntos. Seus sentimentos eram a prova viva de que alguém ama. Não os vi.

Perdi. Fiz tudo o quanto pude pra corrigir mas ceguei por tempo demais. O feri. O magoei. E tardei em enxergar todo o seu esforço. Daqui uma lição. Aprendi que cada um demonstra seus sentimentos de uma forma diferente. Não se deve tentar arrancar nada de ninguém. Correto é entender como os outros demonstram o que sentem. Por não saber disso. Perdi. Adeus.