quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bom Dia (A.S.)

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Tenho visto o sol nascer novamente....


Ah! Essas idas e vindas da vida, o que resta é aproveitar enquanto não está quente demais, ou frio demais, nem claro demais, nem escuro demais, quando, ao mesmo tempo, pode ser hora de ir deitar, ou de levantar, posto que o amanhecer é o começo do dia de tantos, mas apenas o fim de mais uma noite para os boêmios.
Despertando para a vida ou acordando para os sonhos,

Eis, outra vez,

O sol voltando a nascer.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lembranças (A.S.)

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Se eu pudesse apagar algo do meu passado, acho que começaria com as fotos. Certos detalhes que, mesmo debaixo de poeira, fechados em álbuns, sempre voltam pra me atormentar. Gosto de sentir saudades quando sei que poderei matá-las. Mas não gosto de sentir falta do passado. Este nunca volta, mas as imagens estão lá. Presas aos papéis que, enquanto não se desgastam com o tempo, com o clima ou mesmo com o fogo, se mantêm ali. Algumas a nos assombrar, outras nos trazendo certa nostalgia.
Se eu pudesse apagar algo do meu passado, não sei bem por onde começaria. Foi tão bom viver aquilo, foi tão ruim quando acabou. Eternizar seria difícil, mas, será que apagando alguns erros ficaria mais bela a minha história? Algumas vezes parece que se voltasse no tempo o ideal seria não dizer aquela frase, seria mais apropriado entender melhor o porquê sentia para depois me expressar e evitar o erro. Assim mesmo, depois do erro, das tristezas e das melancolias acumuladas com o tempo, a vontade que se dá é de apagar tudo do princípio. Desde o momento em que a história deu a entender que iria existir. Dá vontade de apagar tudo. O primeiro abraço, o primeiro sorriso.
Se eu pudesse apagar algo do meu passado, acho que começaria pelo meu passado. E viveria meu presente pensando que no futuro eu não quero querer apagá-lo.
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sem Título

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Mal percebia o sorriso largo em seu rosto até que soluçou tão involuntariamente quanto como aceitou o beijo. Olhava nos olhos felizes à sua frente procurando esconder a alegria tão surpreendente que lhe tomava o rosto e o corpo inteiro. Havia de fazer-se imperceptível e não ousou sequer agir como pensava. Deu-lhe o sorriso e tornou a encarar. Dizia-se suficientemente normal para o que tinha acabado de acontecer. Não esboçaria reação diferente enquanto não houvesse a certeza de que o que acontecera não fora mero acaso. Um caso banal, um beijo esperado por dois durante anos. Tremeram-lhe as pernas, mas sentiu-se feliz de se encontrar bem confortável numa cadeira. As batidas do coração poderiam ser facilmente disfarçadas enquanto não houvesse um abraço. Fora um momento de proximidade que, mesmo com relutância das duas partes, permitiu o encontro entre as bocas. Disseram-se:

- O que me impede de não querer?

- A mesma vontade que tenho. E o que me impede de tentar?

- A insegurança que dou. Mas o que lhe faz querer?

- A forma como me olha. - E se lhe visse mais de perto?
Aproximou seu rosto do outro.

- E se não me importasse e apenas lhe deixasse se divertir?
Manteve-se quieto.

- E se lhe falasse mais próximo do ouvido?
Arrastou a cadeira para mais perto, baixou o tom da voz e disse:

- Se as palavras ao seus ouvidos fossem tão doces que não pudesse resistir?

- Pensaria nelas como falsas já que te divertes me dando insegurança.
Encostou, levemente, os lábios na orelha direita deixando que o toque fosse suave e o ar que expirava fosse breve e desconcertante.

- E se lhe falasse tudo que é mentira com a verdade tocando em sua pele? Toques não enganam, sensações muito menos.

- E se falássemos sobre verdade sem mais suposições – falava devagar, afastando-se da tentação, enquanto, agora, seus lábios é que tocavam o outro rosto até chegar ao lado da boca finalizando a pergunta – o que você me falaria agora?

Com os olhos bem fixos nos olhos, uma sensação estranha de tremor de frio e calor lhe tomando o ventre, entregou-se.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Buquê de Flores

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Em suas mãos, equilibrava um grande e belo buquê de flores. Podia sentir a água morna deslizando por suas bochechas enquanto a olhava. Era triste o olhar do pobre homem que se manteve calado até o último segundo. Olhava fixo com um aspecto desolado e perdido como quem não sabia bem o que ali fazia. Os que passavam o olhavam de lado, não entendiam bem, mas imaginavam coisas. Fora, outrora, alheio a tal dor. Desconhecia.

Diante dela, sem largar as flores, sentia um aperto tão forte no coração que já se poderia, apenas de muito perto, escutar os breves e sentidos murmúrios do pobre rapaz de olhar e aparência já moribundos. Sempre fora falante e, naquele momento, não encontrava vocábulo adequado. Sofria, ainda mais, por isso.

Ela, nada falaria, mesmo que lhe pedisse por obséquio. Mesmo que lhe implorasse. Não ouviria mais uma palavra sequer daquela que havia lhe provido tantas alegrias. Quem dera não fosse tarde demais, pensava. E se em outra época lhe dissesse tudo o que sentia, haveria ele de sofrer o que sofria agora?

Não podia mais ficar ali. Ajoelhou-se. Abaixou a cabeça entre um soluço e outro. Suas lágrimas já esboçavam um rosto desfigurado, inchado, triste. Levou todas as flores até o chão. Lá, as deixou.

Calado, disse suas únicas três palavras audíveis: “Sempre te amarei”. Leu o nome de sua mãe escrito no túmulo, virou-se e foi.
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Augusto Simões

terça-feira, 5 de maio de 2009

Auroras de outras vidas


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De certo era que era a mesma paisagem de fundo. Bastava desbotar os olhos, amarelar a percepção e envelhecer mesmo que voltando no tempo. As plantas que se agarravam aos muros, o singelo balanço que fora de tantas gerações – agora abandonado – sustentado pela velha mangueira. Época feliz aquela. Onde as infâncias eram infâncias e não apenas protótipos de adultos.
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Foi-se o tempo em que pões e bonecas, bolas e balanços eram a maior das diversões. Antes se fossem as TVs e os desenhos animados cheios de intervalos e comerciais e voltassem as revistinhas em quadrinhos, as histórias de contos em livros sem pausas que não fossem seus capítulos ou sonhos.
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Mas o tempo se faz mais curto do que é até para quem tem todo tempo do mundo. Adeus longas histórias que prendiam a atenção. Adeus folclore e lendas populares. Esta época é de aprender a lutar por nada, bater, se machucar, atirar com o maior nível de realidade possível, atropelar...
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Cabe aos que ainda lembram admirar paisagens semelhantes, de longe, porque hoje é até estranho ver alguém brincar como antigamente.